quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Eu me permito

Algumas pessoas acham que só arrisca a vida quem joga tudo pra o alto. Quem vai vivendo de improviso e no fim se contenta com o que deu certo. Para elas isso é se permitir. Eu não faço nada disso, não sinto falta de não ter  feito e ainda assim acredito que me permito. Me permito porque sou eu mesma responsável por minha vida, inclusive pelas coisas que construo, o que me faz não ter coragem de abandoná-las. Quem é realista sabe o quanto é duro abandonar o que custa nosso próprio esforço. Meus planos, metas, objetivos e roteiros foram criados porque eu sei onde quero chegar e não posso andar sem rumo por uma vida na qual nada é fácil. Se aventurar não é só é ir embora de sua cidade ou de seu país para encarar o desconhecido. É também entrar num mundo onde você é uma estranha e ter seu lugar, sua voz. E isso eu tenho feito a minha vida inteira. Enfrentar o mundo é ser neta de lavadeira e se formar em universidade pública. É querer ter seu próprio dinheiro, seu carro e seu ótimo emprego, onde ainda se pensa que as mulheres devem ser submissas. É saber argumentar, em vez de calar a boca para ser aceita. É poder ser o que quiser, quando quiser, sem ter que dar satisfações ou pedir ajuda.  Se permitir é muito mais do que ir daqui até ali e voltar porque deu tudo errado.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Eu leitora

Nesses crimes que ganham o mundo, o que me interessa não são os assassinatos em si, mas as narrativas desenvolvidas a partir das histórias. Sim, porque crimes chocantes acontecem todos os dias, em todos os lugares. Infelizmente não é tão raro que filhos matem pais, pais matem filhos, maridos matem esposas e etc. Porém, os veículos de comunicação não podem dar conta de noticiar e esmiuçar todas essas histórias. E assim, algumas são eleitas para figurar as páginas dos jornais e essas passam a repercutir e chocar a opinião pública. É assim não só no Brasil, mas em diversos lugares do mundo.

Não sei quando começou meu interesse por crimes de repercussão – como gosto de chamar esses casos -, no entanto é fato que ele se aguçou a partir da idéia de escrever sobre uma história que aconteceu aqui na Bahia há quase 10 anos. Quando eu e Kelly resolvemos produzir um livro-reportagem sobre o caso Lucas Terra – jovem de 14 anos, queimado vivo por integrantes da Igreja Universal do Reino de Deus - passamos a devorar tudo que aparecia em nossa frente sobre outras histórias semelhantes, no que diz respeito à cobertura jornalística. Eu me lembro das noites que passei em claro impressionada com as coisas que lia sobre crimes e assassinos bárbaros. Sem falar nas inúmeras horas de entrevista que causavam um cansaço mental sem igual, no desgaste emocional provocado pelas repetidas idas a Catedral da fé, na abdicação do lazer e nos atrasos ao trabalho gerados pelas demoradas consultas aos processos. Mas, não posso negar que sentia um prazer em tudo aquilo e vivia uma onda de devoção doentia ao tema.

Nesse contexto, não era de se estranhar que eu estivesse acompanhando até a última linha o Caso Nardoni. Eu já havia lido e visto as principais notícias sobre o crime, a perícia, o julgamento e consigo me lembrar exatamente onde eu estava um pouco depois da meia noite do dia 27 de março, momento em que a Rede Globo interrompeu sua programação para transmitir ao vivo a leitura da sentença dos réus. Fui até a frente da televisão, a condenação já era esperada, mas meu arrepio foi inevitável. Mais uma vez, eu quis estar exatamente naquele plenário para viver o que acontecia ali.

Aquela altura eu já sabia que Ilana Casoy, uma especialista há anos em crimes violentos, escrevia um livro no qual ela se comprometeria a contar tudo que acontecia naquele julgamento. Isto porque, no Brasil, ao contrário dos Estados Unidos – morro de inveja disso - , os júris não podem ser televisionados. Eu conhecia a narrativa de Ilana, pois seu livro sobre o caso Richthofen fez parte da bibliografia do meu trabalho de conclusão de curso e por isso não tinha dúvidas de que ela me colocaria sentada dentro daquele Tribunal através de seu texto. Dito e certo.

Ontem, Ilana esteve aqui em minha cidade, na Livraria Saraiva, para o lançamento de A prova é a testemunha(Larousse). Eu e minha companheira de aventuras jornalísticas, acompanhadas de nosso padrinho literário, Eduardo Dorea, fomos até lá. Nosso objetivo era, além de ter um exemplar com dedicatória da autora, entregar a ela nosso livro sobre o caso Lucas Terra. Graças a Dorea, Ilana já sabia da existência de nossa produção e, bastante simpática, nos disse que iria ler nosso material. A autora começou um bate papo que durou até as 22h, quando fomos informados de que a livraria precisava fechar. E eu pensei: porque ninguém teve a idéia de criar livrarias 24h?

No caminho de volta pra casa, não conseguíamos falar sobre outra coisa que não fosse o Caso Nardoni e eu, como uma criança que acaba de ganhar um brinquedo, mal continha meu desespero em ler o livro. Eu já tinha lido a orelha e uma parte do prefácio em pé, enquanto esperava as despedidas.

Hoje só não me dediquei exclusivamente à leitura por falta de tempo e não de vontade. Ainda experimento as seqüências iniciais da história. Mas, como eu já previa, estou realmente assistindo a atmosfera que envolvia aquele fórum nos dias marcados pelo júri dos assassinos de Isabela. O povo vaiando os réus e seu advogado, a tensão do experiente promotor, o árduo trabalho dos profissionais da imprensa improvisando o possível e o impossível para garantir a melhor cobertura, enfim todos os nervos, inclusive os da autora, aflorados.

Só pra formalizar, mesmo sem ter concluído a leitura, já indico pra quem gosta de tensão ou simplesmente pra quem se interessa pelo tema. Tentarei ler num ritmo menos acelerado do que o de costume, pois se não me controlar sairei desenfreada página a página sedenta pelo final. E como é sempre bom esclarecer, o livro não é escrito para jornalistas ou para profissionais da área jurídica, mas para todos aqueles que, assim como eu, gostariam de ter visto de perto o que aconteceu naquele Tribunal.

sábado, 4 de dezembro de 2010

A Sucom, Tomate e a PORRA

A atual gestão do município tem tiradas mais engraçadas do que muito programa de humor. É incrível, a Prefeitura e os órgãos ligados a ela, deixam de resolver o que realmente tem importância nessa cidade, para implicar com coisas irrelevantes. Enquanto os engarrafamentos se multiplicam, as ruas vivem cheias de lixo, ficamos inundados com qualquer chuvinha, o transporte público não funciona e os alunos das escolas municipais têm aulas dia sim/dia não, João Henrique e seus funcionários - pagos com nosso dinheiro - ficam brincando de censurar propaganda, como se não houvesse nada melhor para fazer.

Esta semana, lá na da Superintendência de Controle e Ordenamento do Uso do Solo (Sucom), mandaram tirar a palavra “porra” presente nos dez outdoors com a campanha do novo hit do cantor Tomate. O superintendente, Cláudio Silva, disse que recebeu uma denúncia de cidadãos que se sentiram incomodados com o termo presente nas peças publicitárias. Quando eu li isso tive vontade de perguntar: Cláudio, ninguém reclama daquele brega que está a Avenida Sete, não? Só pra ver se ele resolvia rapidinho assim.

Teve gente que deixou comentário embaixo da matéria do Correio dizendo que o termo “porra” era muito obsceno para estar exposto em via pública. Então as obscenidades feitas com nosso dinheiro na prefeitura, câmara e nos não sei quantos órgãos municipais estão liberadas, né? Afinal, são bem escondidinhas. Eu ainda achava que o nepotismo, a corrupção, as indicações, as terceirizações suspeitas e o péssimo atendimento de alguns servidores, ofendiam muito mais do que um palavrão, percebo que estava enganada.

Com tudo isso, eu só não estou rindo mais do que o próprio Tomate, que tá se dando muito bem com o burburinho causado pela determinação da Sucom.  Bombou no twitter e foi parar na roda de conversa de um programa da GNT.  Assim, sem nenhum custo além do dinheiro gasto pra substituir “porra” por reticências, Tomate teve mais mídia do que qualquer campanha publicitária. E eu, doida pra me bater com ele e falar: Tomate, me chama pra ser sua assessora de comunicação, posso fazer você ganhar muito mais dinheiro com essa PORRA (e quem quiser que censure meu blog) !

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Amor rima com dor

Nos ensinaram que amor rima com dor, depois disso, amar e não sofrer passou a ser a coisa mais estranha e difícil desse mundo. Pois é, quem tratou de afirmar e reafirmar isso, foram os nossos ilustríssimos compositores e intérpretes da MBP. Inventaram de colocar nas letras de suas músicas que a gente devia se arrastar, se humilhar, apanhar, fingir que era feliz sem ser, ficar em casa feito idiotas fazendo docinhos com açúcar e com afeto, guardar o melhor vestido pra quando o cara resolvesse aparecer. Até que a gente pesava feito cruz nas costas deles e ficava em mil pedaços toda vez que alguém saía da nossa vida, passando não sei quanto tempo vivendo com o intuito de mostrar que estava bem demais. Deixaram a casa vazia pra gente lembrar da pessoa em cada canto ou até mesmo dentro de um livro. Vivemos de enumerar desamores e suas consequências. E assim, quebramos xícaras, arranhamos discos, pixamos muros, andamos sem rumo na rua e voltamos pra casa, abatidas e desenganadas da vida, exatamente como nos ordenavam as vozes de diversas mulheres. Nos disseram que a canção só tocava na hora errada e a gente só queria saber de que forma mesmo eles iam embora. Depois virava um barco, sem porto, sem rumo, sem vela ou pista vazia esperando aviões. Enquanto cantavam em alto e bom som que o amor só é bom se doer, e que ainda que a gente rodasse o mundo continuaria gostando daquela mesmíssima pessoa. Sugeriam-nos começar tudo outra vez mesmo sabendo que lá no fim ia dar tudo errado de novo. Criaram essa coisa de que o amor não tem pressa e pode esperar em silêncio, só pra querer viver pra esperar, esperar e se interessar por raspas e restos. MPB você só nos ensinou a sofrer.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Fim.

Nossa história acabou antes mesmo da gente se encontrar. Enquanto eu andava desavisada pela vida, achando-me pela primeira vez preparada para encontrar alguém, tudo já estava escrito e finalizado.  E cada dia que a gente viveu essa história só foi mesmo um dia mais próximo do final. Eu não consigo lembrar direito das primeiras palavras que você me disse, porque elas eram as primeiras palavras a se aproximarem das últimas. E assim, cada beijo que a gente deu, foi apenas um beijo a menos numa soma de não sei quantos beijos que cabiam no espaço do que tínhamos que viver. Cada saída, cada noite de sexo, cada telefonema, cada mensagem, cada presente, era só mais um passo numa caminhada de uma só via. E eu não consigo perceber o quanto fomos felizes porque eu estava muito perto de ser infeliz. Por isso, naquele encontro que eu tinha certeza que era o último, eu não me lembro de ter chorado ou sentido, porque ele já estava previsto desde a primeira troca de olhares. E todos os outros encontros foram nada mais do que meros antecessores. Eu sofri a vida inteira em tão pouco tempo, justamente porque eu sabia que esse pouco tempo estava escrito no meio da minha vida inteira. E até hoje eu não tenho a dimensão exata do nosso fim porque desde o começo ele já acontecia. Já ia se acabando aquilo que só começou pra terminar.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Novidades em Outras Palavras

Novo texto na seção Outras palavras. Sobre o tal do amor. Leiam!
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O que eu chamo de amor

Quando uma mulher decide povoar o mundo com o melhor de si não há engano. E só a isso eu consigo chamar de amor. Na minha vida eu não amo ninguém com a intensidade que amo a mulher que me trouxe a esse universo. Meu coração não consegue bater tão forte por mais ninguém além dessa pessoa. Há mais de duas décadas, num tempo em que ela trazia consigo poucas certezas, aquela mulher decidiu por ela mesma, sem intermédio, consulta, apoio ou conselho que iria gerar a pessoa com quem viveria sua mais linda história de amor. Não foi erro, vacilo ou engano, até porque só é o que tem que ser. Quem já a conhece de tempos, mal se lembra como ela era antes daquela vida. Aquela mulher que renasceu junto com a outra lá naquele agosto, deve ter sentido ao olhar para aquele ser, que era só seu e de mais ninguém, que ali recomeçava o mundo, pelo menos o seu mundo. O carinho, o afeto, as melhores coisas que ela pudesse fazer, faria infinitamente por aquela pessoa e graças às energias que se responsabilizam pelos encontros e desencontros dessa e das outras encarnações. Assim, a vida toda trataria de ser de amor recíproco e de inabalável cumplicidade. Coisa que só quem sente sabe e entende e que quem vê só se baratina. Porque aquela mulher fez um pacto que não foi lavrado em nenhum cartório ou tabelionato, mas que vale mais do que qualquer palavra escrita ou papel impresso. De mãe, de filha, de irmã e amiga de quem não levanta um dia sequer sem desejar a felicidade da outra. Que ensinou a voar mesmo tendo tanto medo de que ela se perca em seus vôos. Aquelas mulheres sabiam que se um dia a vida não desse a elas mais nada, já teria dado muito, pelo simples fato de terem uma a outra. Juntas nada parece tão abalável, nem aterrador, nem mesmo a mesquinhez de quem dia após dia vive de invejar aquele amor, por ser incapaz de mensurá-lo. Coisa de quem não sabe o que é amor e vive confundindo com relações efêmeras. Tem sido assim e assim continuará sendo, duas mulheres vivendo suas vidas dia após dia, amparadas pela certeza de que amor real mesmo só esse, de filha pra mãe e de mãe pra filha.