segunda-feira, 18 de abril de 2011

A tristeza permitida

" Se eu disser para você que hoje acordei triste, que foi difícil sair da cama, mesmo sabendo que o sol estava se exibindo lá fora e o céu convidava para a farra de viver, mesmo sabendo que havia muitas providências a tomar, acordei triste e tive preguiça de cumprir os rituais que normalmente faço sem nem prestar atenção no que estou sentindo, como tomar banho, colocar uma roupa, ir pro computador, sair para compras e reuniões – se eu disser que foi assim, o que você me diz? Se eu lhe disser que hoje não foi um dia como os outros, que não encontrei energia nem para sentir culpa pela minha letargia, que hoje levantei devagar e tarde e que não tive vontade de nada, você vai reagir como?

Você vai dizer “te anima” e me recomendar um antidepressivo, ou vai me dizer que tem gente vivendo coisas muito mais graves do que eu (mesmo desconhecendo a razão da minha tristeza), vai dizer para eu colocar uma roupa leve, ouvir uma música revigorante e voltar a ser aquela sempre que fui, velha de guerra.

Você vai fazer isso porque gosta de mim, mas também porque é mais um que não tolera a tristeza: nem a minha, nem a sua, nem a de ninguém. Tristeza é considerada uma anomalia do humor, uma doença contagiosa que é melhor eliminar desde o primeiro sintoma. Não sorriu hoje? Medicamento. Sentiu uma vontade de chorar à toa? Gravíssimo, telefone já para o seu psiquiatra.

A verdade é que eu não acordei triste hoje, nem mesmo com uma suave melancolia, está tudo normal. Mas quando fico triste, também está tudo normal. Porque ficar triste é comum, é um sentimento tão legítimo quanto a alegria, é um registro da nossa sensibilidade, que ora gargalha em grupo, ora busca o silêncio e a solidão. Estar triste não é estar deprimido.

Depressão é coisa muito séria, contínua e complexa. Estar triste é estar atento a si próprio, é estar desapontado com alguém, com vários ou com si mesmo, é estar um pouco cansado de certas repetições, é descobrir-se frágil num dia qualquer, sem uma razão aparente – as razões têm essa mania de serem discretas.

“Eu não sei o que meu corpo abriga/ nestas noites quentes de verão/ e não importa que mil raios partam/ qualquer sentido vago de razão/ eu ando tão down...”. Lembra da música? Cazuza ainda dizia, lá no meio dos versos, que pega mal sofrer. Pega mal sofrer. Pois é, pega. Melhor sair pra balada, melhor forçar um sorriso, melhor dizer que está tudo bem, melhor desamarrar a cara. “Não quero te ver triste assim”, sussurrava Roberto Carlos em meio a outra música. Todos cantam a tristeza, mas poucos a enfrentam de fato. Os esforços não são para compreendê-la e sim para disfarçá-la, sufocá-la, ela que, humilde, só quer usufruir do seu direito de existir, de assegurar o eu espaço nesta sociedade que exalta apenas o oba-oba e a verborragia, e que desconfia de quem está calado demais. Claro que é melhor ser alegre que ser triste (Vinicius), mas melhor mesmo é ninguém privar você de sentir o que for. Em tempo: na maioria das vezes, é a gente mesmo que não se permite estar uns degraus abaixo da euforia.

Tem dias que não estamos para samba, para rock, para hip hop, e nem por isso devemos buscar pílulas mágicas para camuflar nossa introspecção, nem aceitar convites para festas em que nada temos para brindar. Que nos deixem quietos, que quietude é armazenamento de força e sabedoria, daqui a pouco a gente volta, a gente sempre volta, anunciando o fim de mais uma dor – até que venha a próxima, normais que somos. "

Martha Medeiros

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Copa 2014: E eu com isso?

Ok caros leitores, eu já falei por aqui que não ligo a mínima para futebol. E, se não ligo pra o esporte, me interesso muito menos pelos torneios que o envolvem. Portanto, não queiram me convencer a sentir emoção, entusiasmo ou euforia pelo fato do próximo mundial ser sediado no Brasil. Quanto à campanha Abre a Copa Salvador, eu sugiro colocá-la no fim de uma longa lista, pois existem umas outras 247 campanhas mais importantes que dela, envolvendo temas muito mais relevantes e de interesse de grande parte da população.

A edição da Revista Muito do último domingo, trouxe uma entrevista (comprida e chata como uma espada) com Ney Campello, secretário extraordinário do time de Jacques Wagner designado para resolver os pepinos inerentes à participação da Bahia nesse grande evento futebolístico. Ele falou, num blá, blá, blá sem fim, sobre o quanto o estado está adiantado – apesar do relatório do CREA apresentado ontem afirmar que está tudo atrasado - e sobre as chances da capital baiana ser escolhida como local para abertura do torneio, coisa que eu não acredito e ainda que acreditasse, estou tão preocupada com as obras da Copa, quanto com a queda ou aumento do preço da arroba bovina. Me poupe!

Primeiro porque eu acho que em vez de se preocupar eu preparar a cidade pra Copa, esse povo deveria se preocupar em preparar a cidade para o dia a dia normal dos soteropolitanos. Coisas básicas como alternativas de mobilidade não andam satisfatórias nem em dias de jogos do Bahia contra o Atlético de Alagoinhas, imagine durante a apoteose do esporte que é paixão nacional. Isso pra não falar nas questões envolvendo saúde, limpeza da cidade, segurança e etc. A Copa de 2014 vai resolver tudo isso? Se não for, me dá licença que eu tenho mais o que fazer. Tem escolas da rede municipal que não começaram as aulas até a presente data, enquanto nossos governantes só se preocupam em fazer um make up para arrancar mais dinheiro da Fifa. 

A briga anda quente porque a conversa é de milhões. Empresários de ônibus  estão nervosos para garantir sua parte no bolo. E por isso, de uns tempos para cá, apareceram do nada umas siglas confusas, querendo nos provar através de projetos que serão votados ninguém sabe por quem, que vai ser possível chegar aos locais dos jogos antes que o juiz erga o braço encerrando a partida. Que ótimo! Mas, eu continuo pouco me lixando. Até porque, até a beatificação de irmã Dulce e a morte de ACM  (eu pensei que não viveria para ver isso) saíram antes que o  (mini)metrô ficasse pronto. 

Por isso, caros conterrâneos, esqueçam a Copa e vão cuidar da vida de vocês. Até 2014 há muito que se fazer.

domingo, 10 de abril de 2011

Segue

Identificar o fim, seja lá do que for, é sempre bem melhor do que seguir com uma coisa finalizada, mas sem identificação. Por isso eu estou em paz, ninguém vai precisar me dizer absolutamente nada, porque eu já sei de tudo. E, tenho passado por coisas piores e tem sido simples viver assim. Esperando que a vida retome o ânimo e siga, siga logo!

quinta-feira, 7 de abril de 2011

O que é ser Jornalista

Ser Jornalista é ter que chegar sempre antes e ir embora muito, muito depois. É ter a palavra precisa para transmitir um acontecimento exatamente como se deu. É receber portas na cara, e um sem número de “nãos” quando se deseja mexer na ferida de alguém. É ser xingado, humilhado e desmoralizado diante de qualquer mínimo erro. É não poder chorar quando a realidade nos põe frente a frente com as situações mais incríveis. É não poder esbofetear quanto esta diante de pessoas cínicas, ridículas. É saber perguntar aquilo que o mundo inteiro espera ouvir. É saber ouvir. É ter que saber sempre o máximo de tudo. É correr incontáveis riscos. É chegar perto, bem perto. É suportar o desemprego imposto por um mercado de trabalho filho da puta que não nos valoriza. É aguentar escalas, rotinas, correrias. É promover a cidadania. É dar voz e espaço a quem já quase não consegue falar. É ser chamado de inconveniente, de fofoqueiro, de explorador da dor alheia e de tantas outras coisas. É suportar pessoas que não estudaram nem um décimo do que estudamos e se acham capazes de trabalhar em nossas funções. É encarar as celebridades e seus chiliques desnecessários. É ter que aguentar colegas que arrastam para o lixo o nome de nossa profissão com atitudes toscas e indignas. É trabalhar na deliciosa e ao mesmo tempo ingrata função de transformar o real em notícia, seja esse real como for.

PARABÉNS A TODOS NÓS!

terça-feira, 5 de abril de 2011

Mulheres de mentirinha – a revanche escrita por uma mulher de verdade

Depois de meter o pau nos homens, que se sentiram desconfortáveis, já que só se acostumaram a introduzir, resolvi escrever um texto falando a verdade sobre certos tipinhos de mulheres. Antes que algum engraçadinho escrevesse, aí vai: Mulheres de mentirinha – a revanche dos homens escrita por uma mulher de verdade. De antemão, informo que não será uma ode ao machismo nem uma desmoralização pública da minha espécie. Só quero mesmo pontuar gente que faz coisas abomináveis por mim e por qualquer outra pessoa de verdade. Afinal, não sou a única a detestar as mulherzinhas que entram numa festa de graça depois de dar para os músicos da banda ou para os produtores ou para os empresários ou para o segurança ou seja lá quem for que lhe possa conceder um ingresso para que ela desfile sua beleza medíocre e sua mente oca que só sabe gravar os nomes de suas próximas presas. Mulheres que gastam dinheiro em quilos de maquiagem e escovas definitivas - que vivem precisando ser refeitas - e chegam aos shows sem grana para tomar uma água e precisam ficar a espera de algum babaca que em troca do número de seu telefone lhe pague uma dose de whisky e lhe dê uma carona até em casa. Mulheres que acham que a vida inteira se resume a missão de esperar um macho, agarrar esse macho e suportar tudo que for inerente a ter um macho, inclusive sexo anal sem vontade e morar de favor na casa da sogra. Mulheres que tem pena de quem está solteira e dá pra quem tem vontade e que morrem de vontade de dar para alguém que depois de gozar na sua cara, não vire e ronque. Eu é que tenho pena de vocês! Mulheres que vestem o que é moda, comem o que é moda e dormem com quem é moda. E emagrecem numa tentativa torturante de estarem sempre lindas para o resto do mundo. O corpo é seu e foda-se o resto do mundo. Mulheres que aos 30 anos não conseguem se tornar mais inteligentes do que eram na 5ª série do ensino fundamental. Mulheres que não tem assunto para antes do sexo e nem para depois do sexo. Mulheres que se humilham numa carência inventada pelos comerciais de margarina com suas famílias felizes incluindo cachorros e filhos. Mulheres que largam qualquer coisa por qualquer um. Mulheres falsas em peitos, bundas, almas, narizes e cabelos. Mulheres que se sentem ameaçadas com qualquer novata no ambiente de trabalho e passam a viver numa disputa deprimente. Mulheres que fazem questão de destruir tudo que o feminismo lutou arduamente para transformar em realidade. Parem com isso! Não somos despeitadas, vocês são a nossa vergonha. Mulheres de mentirinha, vocês tem muito que aprender com gente de verdade.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Porque eu não odeio mais as segundas-feiras

Que saudade do tempo em que eu odiava as segundas-feiras, porque nesse dia eu tinha duas aulas de matemática e depois duas aulas de física e era humanamente impossível prestar atenção nas funções f(x) com tanta coisa pra contar para as colegas a respeito do fim de semana. Como sinto falta do tempo em que eu odiava as segundas-feiras porque minha chefa era praticamente Meryl Streep em O Diabo veste Prada, sem aquela mecha no cabelo e sem que eu tivesse o salário de uma repórter da Vogue. Como era bom odiar as intermináveis aulas de Semiótica em plena segunda-feira às 7 da manhã enquanto eu sonhava em ser contratada pela Revista Piauí e viver feliz para sempre. Como eu queria voltar a sentir a tensão daquela segunda-feira em pé usando um sapato alto num ônibus cheio em um engarrafamento a caminho do estágio pensando em tudo que eu ainda precisava ler para meu trabalho de conclusão de curso. Segunda-feira era o dia do programa da Hebe e da Tela Quente, ou seja, nem mesmo a televisão era boazinha comigo no primeiro dia da semana. Segunda era dia de treino novo na academia, dia de pagar algum cartão de crédito, sempre. Meus prazos, minhas metas, minhas obrigações, meu mau humor matinal por já ter acabado o ilustríssimo fim de semana, era parte da minha natureza odiar as segundas-feiras. E só era pior ainda depois de um longo feriado. Anos e anos detestando este dia. Até que, acordo e descubro que: segunda-feira, hoje eu já não lhe odeio mais, porque não tenho nada para fazer e então você se transformou em um dia como qualquer outro. Meu ódio cultivado por anos e anos perdeu sua lógica diante da sua inutilidade. A segunda acabou ficando tão parecida tanto com o domingo quanto com a quarta. Você é apenas mais um dia, diante de muitos outros dias, sempre tão igualmente chatos. Sendo assim, no dia que minha vida voltar ao normal, quem sabe, te odiar volte a ter algum sentido. Até lá, fique tranquila, não te odeio mais.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Eu só queria saber

Pra onde é que a gente volta quando recebe determinadas notícias? Em que quartinho escuro na nossa existência a gente se tranca para chorar por aquilo que a gente sempre espera, mas nunca quer encarar? Onde dormem os monstros que nos assombram quando tais novidades brotam diante de nossos olhos e ouvidos? Em que bosques se perdem em passos confusos de rotas emaranhadas a prova de que nós já somos adultos o suficientes para entender que basta? Por quais mares navegam absortos homens e mulheres que querem não se importar com tudo aquilo que nos grita o quanto nós ainda podemos gostar de alguém?