quinta-feira, 31 de março de 2011

"Sou inquieta e áspera e desesperançada. Embora amor dentro de mim eu tenha. Só que não sei usar amor. Às vezes me arranha como se fossem farpas."

(Clarice Lispector)

quarta-feira, 30 de março de 2011

A TV que a gente merece

Todo país tem a televisão que merece. Por isso, a televisão brasileira, em pleno século XXI, continua dando um show de preconceitos. Sim, e não há exemplo melhor do que o Big Brother. Apresentado pelo jornalista Pedro Bial, que estava lá, na cobertura da histórica derrubada do Muro de Berlim em 1989 e agora só aparece de ano em ano para anunciar os malditos paredões com discursos fajutos e um tanto confusos para a capacidade cerebral da maioria dos brothers. 


Maria, ganhadora do BBB 11
Milhões em merchandisings, poses bonitas na beira da piscina, ensaios sensuais a cada eliminação, baixarias ensaiadas a partir de um roteiro – ninguém me convence de que ali é tudo verdade – a isso se resumem os três meses de futilidade que sustentam essa máquina de fazer dinheiro para a Rede Globo chamada Big Brother Brasil. Por lá desfilam homens e mulheres que traduzem, semana após semana, um pouco do que o Brasil gosta de ver na TV. Mulheres gostosas e burras, homens manipuladores e sagazes, homossexuais cheios de estereótipos, gente branca, gente sem assunto, gente com dinheiro. É disso que o povo gosta. E não é muito diferente de qualquer trama de ficção. Nessa edição, o médico quase ganhou, tinha a dose e a receita certas de um campeão, apostava que ela levaria o 1,5 milhão. Dessa vez, pelo menos a mulher que apesar do nome de santa entrou com fama de puta fez um pouco diferente. Carregou o show nas costas, tocou fogo no marasmo da casa onde não se vive, só se atua. Se humilhou, se embriagou, transou, dançou e, chego a acreditar que só saiu vencedora para garantir à emissora audiência até o último minuto do reality. Se não fosse por ela, mudariam de canal.

Deputado Jair Bolsonaro
Todo país tem a TV que merece e nela, diz-se o que se acha que o povo merece ouvir. Ontem, foi no CQC e hoje foi para os Treding Topics do Twitter a participação do deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) no programa que considero um dos melhores da atual programação da TV aberta. Ao responder as perguntas de um quadro do programa, o homem eleito através do voto do povo com a responsabilidade de representar os cidadãos, elaborar leis e fiscalizar a aplicação do dinheiro público, fez uma chuva de elogios aos tempos da Ditadura Militar, afirmou que jamais seria operado por um médico que tivesse sido cotista em uma universidade e que seus filhos não eram homossexuais porque ele havia sido um pai presente. Assim como se fosse a coisa mais natural do mundo expressar aquelas opiniões  ali. Como se não bastasse, ao ser questionado pela cantora Preta Gil sobre como ele agiria caso seu filho se apaixonasse por uma negra, o deputado deu uma resposta que falava sobre promiscuidade e lamentava o ambiente em que Preta cresceu, que é filha de ninguém menos do que um dos maiores gênios da Música Popular Brasileira. É loucura? Não. É a realidade racista, machista e militarista ao vivo e em cores na televisão brasileira, usando a voz de Bolsonaro e o espaço do CQC.

É assim, poderia ser diferente. Como eu gostaria. Mais educação, menos baixaria, mais realidade, menos ilusão. Mas é isso. A televisão brasileira é do povo brasileiro. Nela esse povo se reflete, se mostra, diz quem é, o que pensa e o que quer. É lamentável! 

segunda-feira, 28 de março de 2011

Bruna Surfistinha: eu não indico

Na última década o cinema nacional se reinventou e atingiu um reconhecido patamar, não só diante dos próprios brasileiros, que passaram a apreciar muito mais a produção interna, quanto diante do cinema internacional, que já lança outros olhos sobre o que se faz por aqui, haja vista as reconhecidas premiações. Nesse contexto, passou a se desenvolver no cinema brasileiro uma recorrente produção de filmes biográficos, de modo que não se passa um ano nesse país sem o lançamento de uma ou outra cinebiografia, até porque, as tramas que dão conta de narrar histórias reais parecem uma escolha certeira para rentáveis bilheterias. Por isso não foi à toa que a trajetórias como as de Cazuza, João Estrella (o Johnny de Meu nome não é Johnny), Chico Xavier, dentre outras, foram parar nas telonas do país nos últimos anos e tiveram um ótimo retorno do público.

Inevitavelmente, nem toda vida de alguém que vira filme tem mesmo tanta relevância ou dá caldo suficiente para garantir indicações e boas críticas. Algumas, mesmo com um bom elenco e nomes de peso por trás das imagens, não conseguem nos dizer pra que vieram. Um exemplo disso -  pelo menos para mim e para algumas pessoas com as quais conversei - foi o récem-lançado Bruna Surfistinha. O filme que conta a história da garota de classe média paulista que abandona a família e se torna prostituta ninguém sabe muito bem por que, não tem nada de verdadeiramente extraordinário. 

Para começar, a produção não é nenhuma grande coisa, não sei se pela história da própria Raquel Pacheco (nome real de Bruna) ou se pelos rumos dados a biografia dela pelos roteiristas e pelo diretor. O ponto de partida é um livro que eu não li, escrito pela própria biografada, mas que, pelo que vi nas críticas, foi deixado de lado pelos roteiristas, pois andam dizendo que eles não colocaram no filme fatos essenciais que nos fariam entender melhor a complexa (?) Raquel. 

Em alguns momentos, achei o filme machista demais, reafirmando algumas visões bem caretas do imaginário sobre a prostituição. Em outras partes achei fantasioso demais. Num terceiro momento senti que assistia a mais uma história cheia de lugares comuns sobre ambição, drogas, sexo e etc. O filme é excessivamente egocêntrico e a história de Raquel Pacheco retratada não tem a densidade suficiente para segurar os 109 minutos de duração da trama.

Outra coisa que não posso deixar de falar é sobre a falta de criatividade no enredo, devo confessar que a narrativa linear é pra mim um verdadeiro porre, essas historinhas de começo, meio e fim, necessariamente nessa ordem, me dão um tédio incrível e não me prendem mais a tela.  Fora isso, apesar de um trabalho relativamente bom de Deborah Secco e companhia, o elenco não se dá muito, senti que as atuações estão bem mecânicas e caricatas. Além do mais, revemos mais uma vez a praga das redundantes narrações em off que ou explicam o que já está sendo visto, ou deixam transparecer a falta de confiança que o próprio diretor tem a respeito da força das imagens que mostra. Assim, não dá.

Para mim o filme é apenas uma história meio preguiçosa de uma vida que não tem nada de tão interessante pra ser dito e com uma atriz de novela das oito no papel principal para garantir sucesso nas bilheterias. Nem mais e nem menos e por isso eu não o indico.

Todo dia é dia de Ivete!

 Para ser bem realista, o show de estreia da nova turnê de Ivete Sangalo, ontem, tinha muita coisa para dar errado. A Prefeitura escolheu um lugar estranho para a quantidade de pessoas que era esperada, o palco era pequeno e o som não podia ser potente pelo risco de pôr a baixo os casarões centenários da região, além do mais, o dia não tinha sido de sol. Porém, quando se trata de qualquer coisa que envolva a atual “Rei Midas” da música brasileira, tudo acaba dando certo. Pelo menos, para estampar um sem número de matérias, produzindo ainda mais mídia positiva para a cantora.

Ainda que pareça inacreditável, a chuva fina cessou assim que Ivete subiu ao palco – relativamente -  pequeno palco montado na Praça Cayru, que jamais tinha sido utilizada para shows dessa proporção e de nenhuma outra. E eu diria que além de ter Jesus (Sangalo) no comando dos seus passos, a baiana deve ter simpatia com outras entidades religiosas, pois nenhum pingo de chuva ousou a cair do céu para atrapalhar seu espetáculo, que estava sendo divulgada por aí como o grande presente de Ivete para a cidade. Pois, como dizem os mais velhos, ela não dá um ponto sem nó.

Não bastasse ter conseguido colocar em pleno Comércio, os figurinos, o piano, o elevador e até os balões que a fizeram levitar como no Madson Square Garden; Ivete, seus patrocinadores e sua equipe ainda trouxeram Seu Jorge de terno e gravata em plena capital baiana – exatamente como em Nova York – e o argentino Diego Torres, para fazerem os respectivos duetos gravados no DVD. DVD este que, por sinal, a despeito de toda a pirataria fortemente empreendida nesse país, já vendeu mais de meio milhão de cópias. Dá pra acreditar?

Assim sendo, hoje não faltaram textos na imprensa falada, escrita e televisionada, ovacionando o brilho da cantora do momento em seu extraordinário show na terra da felicidade. Eu mesma, tendo estado lá, devo confessar que salvo pela falta de iluminação nas transversais ao local onde acontecia o evento, não há do que se reclamar da apresentação. Com um público estimado de mais de 100 mil pessoas, não vi uma briga sequer e nenhum relato de furto.  Havia espaço para todos os públicos e realmente vi gente de todas as tribos e, a presença de Ivete Sangalo no palco é indiscutivelmente uma mistura acertada de carisma e profissionalismo. É por isso que assim como ontem, todo dia tem sido dia de Ivete.

sábado, 26 de março de 2011

"O sertão é dentro da gente. E esse sertão não é feito apenas de aridez e provocação, mas também de veredas, de estações de alívio e beleza em meio à solidão."
(João Guimarães  Rosa)

quinta-feira, 24 de março de 2011

Homens de mentirinha

Vejam só eles, homenzinhos caminhando por aí com seus egos inflados e seus pintos meia bomba que não conseguem nos fazer gozar. Gastam fortunas em anabolizantes para ficarem fortes e se mostrarem para eles mesmos, porque estão todos duros e não podem nos levar nem pra beber uma água de coco. Querem usar roupas de marcas caras e continuam morando na casa dos pais até os trinta anos ou até depois dos trinta nos. Se manquem! Virem adultos! Maldita geração. Olham pra nós, mulheres, e pensam que vão comer amiga após amiga num estalar de dedos. Coitados. Acham que nós somos mesmo idiotas. Acham que nós somos tão palhaças quanto eles. E como subestimam nossa inteligência com suas cabecinhas de merda, ocas de repetir as séries no voador. Vazias de contar vantagens de briguinhas e pegas para os amiguinhos. Seus carros rebaixados não nos impressionam. Nós achamos ridículos. Tanto quanto seus vidros escuros que só servem pra quando vocês resolvem transar com a menina do condomínio na garagem do condomínio. Patéticos! Parem de dizer que não querem compromisso, vocês por debaixo dessas máscaras são muito mais carentes do que nós. Estamos fartas! Estamos rezando pra que vocês não encontrem nossos perfis no facebook e fiquem mandando mensagens idiotas. Como vocês são idiotas. Desfilando nas festas com copos de cerveja quentes, querendo nos mostrar que são o melhor pedaço de carne dos açougues que se tornaram esses eventos. Nós temos mesmo muito saco pra suportar vocês. Estamos muito bem na companhia de nossas amigas, independentes e livres de suas mentiras e chatices. Ai como mentem! Parem de mentir pra nós como mentiam para suas namoradinhas, para suas noivinhas, para essas mulherzinhas que perdem o tempo delas acreditando em vocês. Homens de mentirinha.  Queremos homens de verdade e com um cérebro em bom funcionamento. Enquanto vocês não forem capazes de se tornarem isso, só queremos diversão e, por favor, não liguem no dia seguinte!

terça-feira, 22 de março de 2011

O presente já pode passar

Sabe quando o presente parece que simplesmente não está acontecendo? Ficamos saudosos pelo passado num mantra de "ai como era bom" e ansiosos pelo futuro na linha de que a vida vai melhorar. O hoje, o ontem e o amanhã compõem uma coisa que não da pra viver, que não é vivida. É muito tarde ou é muito cedo, demora tanto e no meio desse caminho a gente não sabe exatamente o que anda fazendo. Fazendo o quê? Nada. O agora estava aqui, mas sumiu em um instante e eu nem vi. preocupada que estava com o que ia ser ou com o que já tinha sido. Como era antes?  A verdade é que não havia tempo pra que eu pensasse nisso. Maldito ócio. Escraviza nosso passado, acaba com nosso presente e transforma nosso futuro num ponto no meio de um nevoeiro estranho. O presente é negado, porque infelizmente não da pra deletá-lo. Cadê o controle remoto cinematográfico onde a gente pode adiantar algumas cenas da nossa vida? Infelizmente ainda não há tecnologia que nos impeça de viver uma coisa de cada vez. E a gente fica assim, louco pra transformar presente em passado. Passa, passa logo!