domingo, 7 de novembro de 2010

De volta aos 15

 Não era bem mais fácil lá nos 15? Ter aquele namoradinho que você só podia dar uns beijinhos ali na porta de casa na sexta, sábado e no domingo das 20h às 22h? E vocês se despediam apaixonados sob os olhares atentos de sua mãe como se não fossem se ver tão cedo. Você ficava pensando nele durante aquela aula chata de matemática e rezava pra que ele conseguisse acordar um pouco mais cedo pra vocês pegarem o mesmo ônibus para ir à escola e aqueles míseros 20 minutos juntos no caminho eram tão deliciosos e infinitos. O beijo era a coisa mais excitante do mundo porque não existia sexo antes, nem depois dele. Seu único dilema sexual era perder ou não a virgindade. E enquanto isso não acontecia você não tinha que se preocupar com a hora de tomar o remédio e ele não precisava se preocupar em ter dinheiro pra pagar um motel. E vocês só rezavam mesmo pra que sua mãe liberasse você pra ir ver um filme na casa dele, com a porta do quarto aberta e a avó dele passando para lá e para cá. Era tão lindo escrever aquelas cartinhas como se na sua vida não fosse existir mais nenhum homem. E nada te alegrava mais do que saber que ele tinha juntado um dinheirinho pra te dar um CD de presente no dia dos namorados. E só o que fazia seu coração se desesperar era alguma prima que ia passar o fim de semana na casa dele ou alguma colega mais atiradinha do colégio. Você não esperava torpedos porque não tinha celular e não esperava e-mails porque não tinha computador. Então você sofria 10 vezes menos. Como era tranquilo viver assim. Esperando sua mãe dormir para que vocês pudessem conversar bastante no telefone. Era ótimo não ter que se preocupar se ele tinha carro ou não, além de ter uma sogrinha que lhe mandava sobremesas nos finais de semana, porque você era só uma menina e era como se fosse filha dela. E você, tola que era, só queria mesmo era fazer 18 anos. Ah se você soubesse! Os anos passam e acabam com tudo. Te apresentam a caras sacanas que querem te comer e você vai rezar pra eles não te ligarem no dia seguinte, te coloca frente a frente com sogras antipáticas que tratam os filhos delas como crianças e que te acham mesmo uma puta. Fazem você ter que se preocupar com os quilos que engordou depois do anticoncepcional e com o carro dele que foi pra oficina em pleno fim de semana. Aí alguém inventa o orkut pra você viver vidrada nas fotos, nos amigos, nos recados. Coloca a merda do celular dele na sua frente pra você ficar fuçando e obviamente vendo algo que não lhe agrada. Inventam a porra do engarrafamento pra você ter tempo de ficar discutindo relação dentro do carro e chegar p da vida no trabalho. Depois você é quase obrigada a ir a eventos onde você não conhece ninguém e tem que ser super simpática. Um saco. Nesse momento, tudo que você quer é voltar a ter 15, mas não dá.

Um comentário:

  1. Muito bom o texto! Gostei do tom de calma com o qual começa, e depois o de revolta quando termina. Mostra bem a mensagem que você quis passar: Aos 15 tudo é mais fácil. rs!

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